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Roupas passadas, o rádio e o podcast

Roupas passadas, o rádio e o podcast

Quando era garoto, vivia com meus pais em uma pequena casa, em Itaquera. Se eu não estava vendo desenhos na TV, estava brincando de ouvir rádio, enquanto minha mãe fazia as tarefas de casa.

 

Como eu gostava de ouvir os programas de rádio com mamãe! Ela ouvia músicas internacionais enquanto lavava louça e arrumava a casa pela manhã. No período da tarde, passava as roupas ouvindo um programa de rádio AM. Nem precisava dizer que quando o rádio era ligado naquele programa, eu já ia correndo ficar com a minha mãe e deitava em cima das roupas, ainda quentes, recém-tiradas do varal e ficava escutando, sob o olhar de uma fã das ondas ZYB.

 

Não me lembro do nome do radialista, mas que ele tinha uma sessão que minha mãe adorava: a leitura de cartas dos ouvintes. Nessas leituras de cartas, os temas quase sempre culminavam numa só personagem: mulheres como a minha mãe. Eram histórias de todo tipo, de fantasmas a maridos que foram embora. Em todas as vezes, mamãe ficava com os olhos marejados ou boquiaberta. Gostava de ver as reações emocionadas dela.

 

Os anos foram passando e ela trocou aqueles programas pela rádio FM - as músicas são melhores, filho! – dizia ela. De fato, eram, mas a FM sempre foi muito impessoal: radialistas falando tão rápido quanto podiam (parecendo que a vida deles dependia do número de palavras que diziam por minuto). Com o tempo, fui sentindo falta daqueles programas de cartas…

 

Como diz um comediante em um popular sketch de comédia: “A vida…a vida é uma caixinha de surpresas.” Depois de algum tempo, apareceu uma vaga temporária para trabalhar em uma rádio comunitária. Logicamente fui até lá. Fiquei uma semana trabalhando nessa rádio. Foi muito bom estar do outro lado do aparelho de som. Infelizmente, durou pouco.

 

Muitos anos depois ouvi falar sobre um tal de podcast. Tinha descoberto que era uma forma de você (trocando em miúdos) criar sua rádio online! Fiquei muito empolgado e queria fazer o meu. Como não tinha ideia de como fazer, entrei em contato com um podcaster (esse é nome de quem produz o dito cujo) Ricardo Macari. Naquele instante, tive um medo absurdo, esperando que eu não fosse ser atendido, pois, na minha cabeça, o “cara” era um rock star… bobagem minha. O “cara” foi super atencioso, me deu dicas e ajudou a montar o meu primeiro programa. Valeu, Macari!

 

Após montar o meu primeiro programa, criei mais alguns: um com a minha mãe e outro com uma grande amiga que era muito fã de cinema. Infelizmente, a vida acabou me levando para outros lugares (inclusive a ser um membro da ABPOD - Associação Brasileira de Podcast) e fui obrigado a deixar os projetos anteriores. Da mesma forma como sentir a quentura das roupas recolhidas e de ouvir rádio com minha mãe, sinto saudades.

 

Depois de muitas idas e vindas, a vida (ela de novo) me colocou de frente para esse meu velho conhecido. Trabalhando em um outro projeto junto com um cliente/amigo, criamos um outro podcast sobre negócios on-line. O público gostou e interage bastante.

 

Você deve estar perguntando: “Evandro, por que raios você está contando essa história toda?” Explico: assim como o locutor da rádio AM, o podcast gera uma coisa muito boa que anda se perdendo no meio de tanta informação caótica: conexão, profundidade e um lugar seguro para expressar suas ideias.

 

  • Conexão: ao falar para sua audiência de um assunto o qual você gosta, uma afinidade imediata é gerada. Imagine um assunto sobre futebol, artes, Lego (sim eu gosto de Lego), bandas de rock, discotecagem, etc., sem ter limites para comunicar. Gostamos de quem fala a “nossa língua”.
     

  • Profundidade: falar do que gosta é uma etapa que, naturalmente, o seu conteúdo gerará uma conversa em um nível muito mais profundo do que uma rádio ou programa de entrevistas, tal qual aquela conversa com seus amigos em um happy hour.
     

  • Lugar seguro para expressar suas ideias: imagine que você pode se expressar sem precisar aparecer. Isso é ótimo para quem tem vergonha de gravar vídeos. Tirar o medo de aparecer da equação é algo libertador!

 

Com a popularização da tecnologia, hoje, qualquer um pode criar uma “rádio”, ou seja, pode ter seu podcast. Tudo o que você precisa é ter vontade de inspirar outras pessoas, gerar conexão, ter uma boa conversa com a sua audiência - sim, você pode, e deve, ter sua audiência!

 

Crie seu podcast, pois existem pessoas nesse mundo que precisam ouvir o que você tem a dizer. Mas tome cuidado: com seu podcast, você corre o risco de inspirar outras pessoas, assim como eu, de ver uma pilha de roupas para passar com outros olhos, ou melhor, ouvidos!

 

Aproveito para agradecer a Dona Rê, minha mãe; ao Ricardo Macari; ao Maestro Billy; ao meu querido amigo Og Maciel, quando criamos o Castalio Podcast – o nome é estranho, mas o significado é bacana; ao Elyézer Rezende e a todos os membros fundadores da ABPOD. Sem vocês eu não estaria contando tudo isso hoje! ;)

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